Em janeiro, eu e outras 13 mulheres mergulhamos em uma experiência transformadora na paradisíaca ilha de Fernando de Noronha.
Embarcamos sem muita ideia do que nos esperava, cada uma levando sua biografia e uma pergunta para o mar responder.
Nossa jornada foi guiada pelo mestre Henrique Pistilli, o homem-peixe, embalada pelas canções e conhecimentos ancestrais da Bia Sabino, a sabedoria do Lucas, um guarda-vidas iluminado, campeão brasileiro de bodysurf, a presença forte e discreta do Tiago, também peixe e artista. Fomos também acompanhadas pelas lentes talentosas da Maíra, o apoio da Paula para todas as horas, e surpreendidas pelas lágrimas emocionadas da Meg, a caçula do grupo, ao assistir mulheres com a idade de sua mãe romperem suas armaduras, soltarem suas pedras, enfrentarem seus medos e entregarem-se ao oceano. Esse incrível time deu a mão para cada uma de nós, conduzindo-nos pelos conhecimentos da antroposofia e das culturas tradicionais, havaianas e brasileiras, pelos desafios e encantos da natureza e pela beleza da arte. “Nos seus braços, eu posso voar.”
Logo no primeiro dia, percebemos nossa total desconexão do mar. Depois de tomar várias ondas na cabeça, o grupo das que se consideravam “avançadas” na água – onde, sem humildade alguma, me incluí – não conseguiu ultrapassar a arrebentação. O mar não é um inimigo que você precisa superar. Afinal, “somos água”. Mas é preciso aprender a fluir com ele. “Eu, oceano.”
Mergulho seguinte, já com o grupo completo e num estado de mais relaxamento e conexão, a experiência foi tão diferente, que um sol brilhante dissipou o cenário cinza assustador, sintonizando a leveza do momento. Ali, sentimos, pela primeira vez, a potente sensação de “cardume”. Não importa se eu venci a arrebentação, consegui surfar algumas ondas – sim, pegamos muito jacaré ou, como aprendemos, body surf – ou só tomei caldos. O que importa é se o cardume atingiu seu objetivo, se todos cresceram juntos e ninguém ficou para trás. “Não é sobre mim”.
Todas as manhãs, nos lançávamos ao mar, cada dia em uma praia diferente – todas de beleza estonteante. Superamos medos, aprendemos técnicas na água, mergulhamos, brincamos muito. Aprendemos que, no mar, assim como na vida, os maiores perigos estão dentro de nós. É o pânico que nos afoga. Aprendemos a relaxar no caldo. Ele acaba e temos fôlego suficiente para esperar. Quem sabe dá até para aproveitar a sensação do corpo rodando no fundo do mar. “Vamos ser felizes antes que precise dar certo.”
Fora do mar, também tivemos vários momentos “aloha”. Depois de horas na água, fizemos um círculo de meditação deitadas na areia. Todas integradas ao cardume, o cardume integrado à areia, a areia integrada ao universo. Mais uma vez, nossos guias nos conduziram com suas palavras, faladas e cantadas. E o mar esperou a última palavra ser dita para nos presentear com uma onda, que nos cobriu a todas, abençoando um momento inesquecível. “Quando você está em fluxo com a natureza, ela dialoga com você.” E, de fato, a natureza foi participante ativa em todos os momentos.
À tarde, na pousada, nos recolhíamos em nossas reflexões individuais, que depois compartilhávamos com o grupo. Escrevemos, desenhamos, conversamos, ouvimos ensinamentos, música e silêncio. Contamos sobre nossas jornadas a cada setênio, nossas cicatrizes, nossas realizações, nossos valores. Acessamos memórias e registros subconscientes. Nos maravilhamos com as descobertas umas das outras. Nos abraçamos. Choramos – e não foi pouco! – embaladas pela música da Bia:
“Sagrado é o mistério que te habita
Cor de sangue, pinta
Fortalece e nutre a vida
Transmuta, transborda
Tua fúria em forma de oração
Entrelaçando nossas histórias
Teceremos o nosso lugar”
“Imua”, em havaiano, significa “seguir em frente”. Foi com esse grito de potência que encerramos a primeira etapa de uma nova jornada. Seguiremos em frente, porém transmutados, com histórias agora entrelaçadas. Seguiremos em cardume. Para realizar antigos e novos sonhos. Para sermos o melhor que podemos ser para o mundo. “Eu, grão de areia. Eu, cardume. Eu, sol. Eu, oceano. Aloha!”