SXSW: Um Mergulho na Dualidade

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Imagem criada por inteligência artificial, a partir de comandos realizados por um humano

São 8pm em Sonoma, CA, EUA. Escutando jazz e bebendo um Pinot Noir em um aprazível Airbnb de frente para a praça central, tento processar a avalanche de informações e sensações do SXSW 2024. O festival terminou há alguns dias, mas seguimos nos EUA. Final de semana com amigos em San Antonio, Texas, e agora Napa Valley. Enfim, o momento ideal para refletir e filosofar sobre as intensas vivências dos últimos dias.

Gosto de sínteses. Extrair mensagens que façam sentido a partir de informações desconexas. E, para mim, a palavra que melhor resume tudo o que se disse, se viu e se experimentou em Austin é DUALIDADE. Esse foi um dos insights do wrap up da Sparkers, grupo liderado pela Chris Aché e pela Andrea Bisker de que tive o privilégio de participar nesta minha estreia no SXSW. E, desde o fim do festival, o sentido de dualidade foi se aprofundado em mim. Sentido, sim, pois não estou me referindo apenas à noção conceitual da dualidade.

Conceitualmente, a dualidade pode ser descrita como a existência de dois princípios, elementos ou realidades opostos ou distintos que coexistem. Na filosofia antiga, Platão é um exemplo do pensamento dualista com sua distinção entre o mundo das formas, perfeito e eterno, e o mundo sensível, imperfeito e em constante mudança. Na filosofia medieval, a dualidade é vista na divisão entre o finito e o infinito, entre os seres humanos e Deus. Descartes talvez seja o filósofo mais conhecido por sua formulação do dualismo mente-corpo. E, pela teologia, conhecemos o dualismo entre o divino e o profano, o bem e o mal.

Mas a dualidade transcende a filosofia e a teologia, estendendo-se à psicologia e a outras áreas do conhecimento para ilustrar a riqueza das perspectivas humanas na busca por compreender a realidade. Ela oferece uma lente através da qual podemos explorar a complexidade do mundo e da experiência humana.

Essa estada prolongada nos EUA tem sido um mergulho na dualidade. Imaginem vir diretamente do Texas, estado conservador, com tradição de caça, carne vermelha e petróleo, para a Califórnia, estado da sustentabilidade e da maconha legalizada! Ok, Austin tem mais cara de Califórnia do que de Texas.

Para mim, o SXSW foi a fotografia de um mundo dual: tecnologia X humanidade, IA X criatividade, conectividade X privacidade, solidão X conexão, fato X fake, lucro X propósito.

Essas tensões não são novas, mas o avanço da IA parece potencializá-las e aproximá-las. A tecnologia evolui de forma exponencial. E o ser humano… está evoluindo? Algumas vozes defendem as conexões humanas, a empatia, a justiça algorítmica, o senso de comunidade, a responsabilidade empresarial. Tantas outras propagam apenas os benefícios da tecnologia e a importância de acelerarmos seu avanço.

Na minha visão, o maior desafio que estamos enfrentando não é a tecnologia. A tecnologia é um meio, que pode ser uma ferramenta ou uma arma. Nosso maior desafio é o fim – por quê? para que? e para quem estamos desenvolvendo a tecnologia? E aqui entra a dualidade que me parece nortear todas as demais: estamos nesse passo para gerar/aumentar lucros das empresas ou para o bem comum – que, no caso da IA, corresponde ao bem da humanidade?

Nada contra o lucro – pelo contrário. Mas temos segurança de que as empresas que estão desenvolvendo e utilizando IA o farão pautadas nos princípios de integridade, responsabilidade, equidade, transparência e sustentabilidade?

Neste ponto, nos deparamos com uma outra dualidade atual, que também ficou evidente no SXSW: precisamos de mais regulação estatal ou as empresas e a sociedade civil é que deveriam desenvolver mecanismos de autorregulação e controle?

Navegar a dualidade não é trivial. Nosso cérebro não se desenvolveu para isso. Pelo contrário, no “modo automático”, ele busca certeza e segurança. Por isso, nesse breve período, experimentei – e acredito que a maioria dos participantes do SXSW também – uma montanha-russa de medo e esperança, presença e ansiedade, diversão e preocupação, conexão e isolamento.

Mas a vivência do SXSW serve como um lembrete da importância de navegar essas dualidades de forma consciente e intencional. Para aproveitar os inimagináveis benefícios que a tecnologia nos proporcionará sem perder de vista que ela deve estar a serviço da humanidade – e não o contrário. Para potencializar a criatividade humana e não a substituir. Para gerar riqueza que se possa compartilhar e não para aumentar a desigualdade. Para buscar o diálogo e não potencializar a divisão.

Sim, a humanidade é dual. Perspectivas opostas podem ser igualmente legítimas, úteis e até complementares. A capacidade de encontrar insights em diferentes visões, com uma mente curiosa e não julgadora, deveria ser nosso norte. Como disse Amy Webb, todos os indivíduos vivos são parte de uma mesma geração – a geração da transição (Gen T). Em alguns anos, o mundo não será mais o mesmo. Nossas melhores chances estão em nos unirmos e não permitir que nossas dualidades nos polarizem.

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